Boi gordo se aproxima de R$ 400 por arroba com pressão externa e oferta restrita
Preço do boi gordo em São Paulo chega a cerca de R$ 390, segundo o Cepea, impulsionado pelo câmbio, pela retomada esperada das compras chinesas e pela demanda dos Estados Unidos; analistas veem pouco espaço para recuo até o início de 2027.

O preço do boi gordo no Brasil se aproxima de R$ 400 por arroba diante da combinação entre oferta menor de animais para abate, demanda externa aquecida e valorização do dólar frente ao real. Em São Paulo, principal referência do mercado pecuário brasileiro, a arroba está cotada em cerca de R$ 390, com alta superior a 20% no acumulado do ano, de acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
A valorização ganhou força mais recentemente com a alta do dólar, que avançou 9,15% em uma semana após a reação do mercado ao resultado do segundo turno das eleições. Para Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, o câmbio elevou a competitividade da carne brasileira no exterior e aumentou o interesse dos frigoríficos em exportar, com reflexo direto na remuneração do gado.
A expectativa de retomada das compras da China também contribui para sustentar os preços. Maior importadora da carne bovina brasileira, a China deverá voltar ao mercado entre novembro e dezembro, segundo a avaliação apresentada no levantamento, com o objetivo de preencher a cota sujeita a uma tarifa menor em 2027. A cota prevista para o próximo ano é de 1,128 milhão de toneladas de carne brasileira, com tarifa de 12%; acima desse volume, a alíquota sobe para 55%.
A cota tarifária de 2026 foi esgotada por volta da metade do ano, o que reduziu temporariamente o fluxo de compras chinesas. A possibilidade de uma nova janela de importações alimenta uma expectativa positiva entre os agentes do setor. João Figueiredo, líder da área de pecuária da consultoria Datagro, afirmou que já foram registrados negócios com frigoríficos exportadores em patamares de R$ 400 por arroba, conforme pesquisas usadas na elaboração do indicador de preços da consultoria para a liquidação de contratos da B3.
Negociações nesse nível também teriam ocorrido com empresas voltadas ao mercado interno, que costuma apresentar maior demanda no fim do ano por causa da temporada de festas. Figueiredo, no entanto, avaliou que R$ 400 por arroba tende a funcionar como um limite para os frigoríficos que dependem principalmente do consumo brasileiro, porque esse patamar começa a pressionar a capacidade de compra do consumidor.
Além da China, os Estados Unidos aparecem como um dos principais destinos da carne bovina do Brasil e têm contribuído para manter as exportações em ritmo forte. Para Lygia Pimentel, a valorização do dólar pode compensar, mais adiante, a redução inicial das margens dos frigoríficos provocada pela alta do boi, especialmente se os dois mercados ampliarem as compras e sustentarem os preços pagos pela carne brasileira.
Do lado da oferta, o ciclo pecuário reduziu a disponibilidade de animais para abate. Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea, afirmou que não há muito espaço para uma queda das cotações até a virada do ano e, possivelmente, durante o primeiro semestre, considerando a oferta restrita e a demanda da China e dos Estados Unidos. Na avaliação dele, o equilíbrio entre oferta e procura mantém a pressão sobre os preços.
A alta da arroba tende a se espalhar por toda a cadeia. Carvalho afirmou que o consumidor deverá pagar mais caso mantenha o consumo de carne bovina, enquanto os pecuaristas que compram bezerros ou bois magros para engorda também enfrentam custos maiores. Segundo o pesquisador, a diferença entre o preço de compra do animal e o valor de venda da carne está entre as menores desde 2023, o que reduz as margens do setor. Para 2027, ele prevê pressão sobre os resultados da cadeia, enquanto Figueiredo apontou preocupação com a demanda doméstica caso sejam adotadas medidas de ajuste fiscal pelo governo.
Fontes da reportagem
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