André Lara Resende nega contato com Lula e detalha proposta para juros e política fiscal
Economista afirma que não foi procurado pelo presidente e diz que sua ideia prevê um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar metas de longo prazo. Proposta é criticada por setores do mercado e da oposição, que temem interferência na autonomia do Banco Central.

O economista André Lara Resende afirmou que não teve contato com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem possui reunião marcada para apresentar sua proposta de mudança na condução das políticas monetária e fiscal. A declaração foi dada em entrevista à BBC News Brasil, após o artigo do economista passar a ser associado às discussões sobre o futuro da economia no quarto mandato de Lula.
Lara Resende disse que as especulações sobre um possível encontro com o presidente foram divulgadas para desgastar a proposta ou pessoas ligadas a ela. Segundo o economista, ele não pretende integrar o governo. A repercussão começou depois que a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou o texto nas redes sociais e o classificou como fundamental para o debate sobre a política fiscal.
O artigo foi publicado em setembro em uma newsletter na plataforma Substack. O objetivo, segundo Lara Resende, era explicar por que a taxa básica de juros brasileira permanece em nível elevado e discutir alternativas para superar o que ele considera uma armadilha formada pela combinação entre juros altos e dívida pública. Ex-diretor do Banco Central entre 1985 e 1986 e presidente do BNDES por oito meses em 1998, ele também foi um dos formuladores do Plano Real.
O centro da proposta é a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que funcionaria ao lado do Banco Central. O novo órgão teria a atribuição de estabelecer metas de longo prazo para a política fiscal e para a taxa básica de juros, além de ajudar a coordenar as expectativas de agentes econômicos. A criação do conselho, porém, dependeria da aprovação do Congresso Nacional, já que o Banco Central não teria autonomia institucional para instituir um órgão com essas funções, apenas comitês consultivos.
Na avaliação do economista, o desequilíbrio das contas públicas brasileiras é influenciado principalmente pelo custo dos juros pagos sobre a dívida, e não apenas pelo volume de gastos do governo. Ele classificou os juros da dívida como uma transferência de renda para os detentores de títulos públicos e afirmou que a política fiscal ainda precisa ser aprimorada, embora discorde da interpretação de que os gastos sejam a origem principal do déficit.
Lara Resende citou dados segundo os quais o déficit público em 2025 foi de 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme o Tesouro Nacional. Também afirmou que o déficit primário, que não inclui o pagamento de juros da dívida, esteve entre os menores do mundo naquele ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O economista estima que a dívida pública brasileira corresponda a cerca de 80% do PIB e sustenta que seu custo é fortemente afetado pela taxa básica de juros.
A Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, foi mantida em 13,75% ao ano na semana mencionada na entrevista, interrompendo um ciclo de cortes iniciado quando a taxa estava em 15%. Lara Resende rejeita a interpretação de que sua proposta represente uma redução forçada dos juros. Ele afirmou que a taxa de aproximadamente 7,5% ao ano citada no artigo é apenas indicativa e que o ritmo de eventual queda deveria ser avaliado conforme a evolução das circunstâncias.
A proposta gerou críticas de diferentes grupos. Setores do mercado financeiro e opositores do governo afirmaram que a iniciativa poderia reduzir a autonomia do Banco Central na definição da política monetária. Economistas de esquerda também apontaram o risco de fuga de capitais, desvalorização do real e pressão sobre a inflação e os salários. Lara Resende, por sua vez, relacionou sua formulação ao diálogo com o economista norte-americano John Cochrane, que considerou a ideia sofisticada, mas avaliou que ela estaria mais apoiada em fundamentos teóricos do que em aspectos práticos.
Fontes da reportagem
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