Santiago Peña deixa a Presidência do Paraguai após colapso do Ueno Bank
Renúncia ocorreu durante debate de impeachment na Câmara, que aprovou a abertura do processo por unanimidade. Crise começou após a liquidação do banco digital, que teve depósitos congelados e mantinha recursos públicos e pagamentos de aposentados.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) a renúncia ao cargo, em meio à crise financeira provocada pela liquidação do Ueno Bank e ao avanço de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados. O vice-presidente Pedro Allana assumirá a Presidência, enquanto o Senado deverá decidir se dá continuidade ao processo de destituição.
A renúncia foi anunciada por Peña durante a discussão parlamentar sobre a abertura do impeachment. Segundo o ex-presidente, a decisão busca preservar a estabilidade do país e as instituições. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, ele também pediu desculpas à população por eventuais falhas durante o mandato e afirmou que não teve a intenção de trair a confiança recebida.
Mesmo após o anúncio, a Câmara aprovou por unanimidade a abertura do processo contra Peña. A análise pelo Senado tem relevância jurídica porque ex-presidentes paraguaios têm direito a ocupar uma cadeira de senador vitalício, com direito a voz, mas sem voto. Presidentes cassados, porém, perdem esse direito e o foro privilegiado.
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central Paraguaio interveio no Ueno Bank e determinou a liquidação da instituição. Os depósitos dos correntistas foram congelados. O banco digital tinha 2,9 milhões de clientes, número equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai, segundo as informações divulgadas sobre o caso.
A oposição responsabiliza Peña por possíveis conflitos de interesse. O ex-presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025. Também é alvo de críticas a decisão do Instituto de Seguridade Social, órgão estatal, de realizar investimentos na instituição financeira. O banco administrava ainda o pagamento de pensões de milhares de aposentados e concentrava cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.
O Paraguai dispõe de um fundo garantidor com cobertura de até US$ 38 mil por pessoa, equivalentes a ₲ 228,3 milhões ou 75 salários mínimos. A agência de risco Moody’s alertou que a situação testará a capacidade das autoridades de administrar a crise em um banco de grande porte. De acordo com análise citada pela Bloomberg Línea, embora o Banco Central tenha indicado que 97% dos depositantes estariam integralmente cobertos, apenas 30% dos depósitos do Ueno Bank estavam dentro dos limites da garantia.
A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai afirmou que duas em cada três transações das grandes redes varejistas eram realizadas por contas do Ueno Bank e previu impacto no comércio e na rotina das famílias. A crise financeira também ameaça a imagem do Paraguai como destino emergente para investimentos estrangeiros. Com a renúncia de Peña, o próximo passo institucional será a definição, pelo Senado, dos efeitos do processo de impeachment e da transição para o governo de Pedro Allana.
Fontes da reportagem
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