Quanto dá para confiar? Observatório cruza pesquisas de 2022 e 2024 com as urnas em Sergipe
Análise encontrou casos de inversão de vencedor, erro na composição do segundo turno e diferenças de até 21,1 pontos na margem entre candidatos. O histórico não prova fraude nem invalida pesquisas de 2026, mas mostra por que liderança eleitoral precisa ser lida com método e contexto.

Pesquisa eleitoral é fotografia, não previsão. Ainda assim, quando um levantamento é divulgado na reta final da campanha, ele influencia manchetes, estratégias, doações, mobilização e a própria percepção do eleitor sobre quem está competitivo. Por isso, o Observatório Sergipe decidiu fazer um teste simples e verificável: voltar às eleições de 2022 e 2024 e confrontar pesquisas de institutos que continuam presentes no debate eleitoral sergipano com o que as urnas efetivamente mostraram.
A análise não parte da tese de fraude. O objetivo é medir desempenho histórico. Para o quadro principal, foram selecionados casos em que o trabalho de campo terminou no máximo cinco dias antes da votação e em que pesquisa e resultado podiam ser comparados na mesma base, preferencialmente votos válidos. Em vez de somar diferenças isoladas de cada candidato, calculamos o desvio entre a margem projetada para os dois nomes comparados e a margem final das urnas. Isso evita distorções causadas por indecisos, brancos e nulos.
O maior desvio localizado nesse recorte ocorreu na disputa pelo segundo lugar em Aracaju, no primeiro turno de 2024. A pesquisa Dataform/ECM, realizada entre 30 de setembro e 2 de outubro, apresentava Yandra com 26,2% e Luiz Roberto com 14,5%, uma vantagem de 11,7 pontos para Yandra. Quatro dias depois, a urna mostrou o inverso: Luiz Roberto terminou com 23,86% e Yandra com 14,47%, uma vantagem de 9,39 pontos para Luiz. A distância entre a margem indicada e a margem real foi de aproximadamente 21,1 pontos. Mais importante do que a diferença numérica, o levantamento apontava uma composição de segundo turno que não se confirmou.
Em Estância, o Instituto França concluiu pesquisa entre 2 e 4 de outubro de 2024 dando André Graça com 54% dos votos válidos e Joaquim Ferreira com 27,68%. A vantagem projetada era de 26,32 pontos. Na eleição de 6 de outubro, André venceu, mas com 43,41% contra 34,75% de Joaquim, uma diferença de apenas 8,66 pontos. O instituto acertou o vencedor, mas a margem ficou 17,66 pontos distante da urna.
No segundo turno de Aracaju em 2024, o INOR ouviu 800 eleitores nos dias 23 e 24 de outubro e apresentou Emília Corrêa com 66,23% dos votos válidos e Luiz Roberto com 33,77%. A vantagem projetada era de 32,46 pontos. Em 27 de outubro, Emília venceu por 57,46% a 42,54%, margem de 14,92 pontos. O vencedor foi corretamente indicado, mas o tamanho da vantagem ficou 17,54 pontos acima do resultado efetivo.
A W1 oferece um exemplo diferente. Em Poço Redondo, pesquisa com campo entre 30 de setembro e 2 de outubro de 2024 mostrava, nos votos válidos, Aline Vasconcelos com 50,26% e Vado Gavião com 46,86%, uma liderança de 3,4 pontos para Aline. Nas urnas, Vado venceu com 53,82%, contra 44,46% de Aline. A margem mudou de lado e terminou em 9,36 pontos para Vado. O deslocamento entre a margem pesquisada e a margem da urna foi de 12,76 pontos. Nesse caso, o instituto indicou o vencedor errado a poucos dias da eleição.
A Quaest acertou o vencedor e os protagonistas de Aracaju em 2024, mas também teve diferença relevante no segundo turno. Na pesquisa de 25 e 26 de outubro, Emília aparecia com 62% dos votos válidos e Luiz Roberto com 38%, vantagem de 24 pontos. No dia seguinte, a urna registrou 57,46% a 42,54%, vantagem de 14,92 pontos. O desvio da margem foi de 9,08 pontos. No primeiro turno, por outro lado, a última Quaest havia colocado Emília, Luiz Roberto e Yandra na mesma ordem que seria confirmada pelas urnas.
No segundo turno para o Governo de Sergipe em 2022, três levantamentos de reta final acertaram o vencedor com desempenhos diferentes. O Instituto França, com campo encerrado em 29 de outubro, projetou Fábio Mitidieri com 54,3% dos válidos e Rogério Carvalho com 45,7%; a margem ficou 5,2 pontos maior que a margem final de 3,4. O Veritá, com 53,8% a 46,2%, teve desvio de 4,2 pontos na margem. O CTAS, com 53,3% a 46,7%, ficou 3,2 pontos distante. Todos apontaram corretamente Fábio na frente.
Existe ainda um episódio que merece ser tratado separadamente por causa da distância temporal. A Real Time Big Data ouviu eleitores em 17 e 18 de outubro de 2022, doze dias antes do segundo turno, e mostrou Rogério Carvalho com 57% dos votos válidos contra 43% de Fábio Mitidieri. A urna terminou com Fábio vencedor por 51,70% a 48,30%. A pesquisa, portanto, captou uma liderança que se inverteu até a votação. Como havia quase duas semanas entre o campo e a urna, o Observatório não colocou esse caso no ranking principal de reta final. A mudança pode refletir tanto erro amostral quanto movimento real do eleitorado no período.
O Senado de 2022 revela outro tipo de ponto cego. Laércio Oliveira foi eleito com 28,57% dos votos válidos, mas quatro levantamentos de institutos que voltaram a aparecer no ambiente eleitoral sergipano não o colocavam em primeiro. A Real Time Big Data, em campo em 26 e 27 de setembro, mostrava Valadares Filho e Danielle Garcia à frente e Laércio em quarto na porcentagem total divulgada. O CTAS, em levantamento concluído em 23 de setembro, colocava Laércio em terceiro. O Veritá, com campo entre 17 e 21 de setembro, apresentava Eduardo Amorim na liderança e Laércio em quarto. O ECM, em pesquisa realizada entre 9 e 18 de setembro, colocava Danielle e Valadares à frente de Laércio. Como esses levantamentos tinham percentuais relevantes de indecisos, brancos e nulos e foram feitos em datas diferentes, o Observatório não usa a simples diferença percentual para montar um ranking. O dado importante é a ordem: nenhum desses quatro levantamentos colocou o futuro vencedor na liderança.
Esse histórico não autoriza dizer que uma pesquisa atual é falsa, comprada ou manipulada. Margem de erro é uma medida probabilística, pesquisas trabalham com amostras e o eleitor pode mudar de opinião depois da entrevista. Além disso, diferenças de metodologia, ponderação, municípios, modo de coleta e tratamento de indecisos alteram o retrato. O que o histórico demonstra é que registro na Justiça Eleitoral e aparência de precisão decimal não transformam pesquisa em resultado antecipado.
Para 2026, essa cautela é especialmente importante. Vários institutos vêm apresentando cenários diferentes para a disputa ao Senado em Sergipe, inclusive levantamentos em que André David aparece numericamente na frente. O histórico de 2022 e 2024 mostra que a pergunta correta não é apenas quem lidera. Também importa saber quando a pesquisa foi feita, como a amostra foi distribuída, quem contratou, qual a margem de erro, quantos eleitores ainda estavam indecisos e como aquele instituto se comportou em eleições anteriores.
O Observatório também evita criar um ranking definitivo de melhor ou pior instituto com esta primeira amostra. Nem todas as empresas pesquisaram as mesmas cidades, cargos ou quantidades de eleições, e algumas marcas atuais não possuem histórico comparável suficiente. Comparar uma empresa com oito levantamentos e outra com apenas um produziria uma classificação enganosa. A proposta é construir um banco público e cumulativo de precisão, acrescentando novos casos com critérios idênticos.
A partir desta reportagem, o Observatório Sergipe passará a registrar os levantamentos estaduais de 2026 com seus dados de campo, contratantes, amostra, margem de erro e resultados. Depois da eleição, os números poderão ser confrontados com as urnas pelo mesmo método. Institutos citados nesta matéria podem encaminhar esclarecimentos metodológicos ou correções documentais; manifestações relevantes serão incorporadas de forma identificada e transparente.
A conclusão, até aqui, é menos espetaculosa e mais importante: pesquisa eleitoral pode acertar o vencedor e errar bastante a distância, pode acertar a liderança e errar quem vai ao segundo turno, e pode também deixar o futuro vencedor fora da primeira posição. Por isso, uma manchete de liderança deve ser tratada como fotografia daquele levantamento, nunca como sentença sobre o que acontecerá nas urnas.