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Operação Histograma: documentos mostram R$ 122 milhões em contratos da AKSA e salto de até 93,6% em preços

Observatório Sergipe reconstruiu a cronologia da AKSA em Aracaju, cruzou contratos, preços, notas fiscais de campanha, registros societários, decisões do TCE e a coletiva da Polícia Civil.

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Policiais durante diligências da Operação Histograma em Sergipe
Crédito da imagemJorge Henrique/SSP-SE

Na manhã desta terça-feira, 25 de agosto, policiais civis cumpriram 12 mandados de busca e apreensão em Aracaju, Barra dos Coqueiros e na Bahia. A ação recebeu o nome de Operação Histograma e colocou sob investigação contratos públicos que começaram na limpeza urbana da capital e depois alcançaram outras áreas da administração municipal.

Segundo a Polícia Civil, a investigação apura possíveis fraudes, direcionamento de contratações, recomposição artificial de preços e eventual pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos. Foram apreendidos documentos, celulares, notebooks e computadores que ainda serão submetidos a análise pericial.

Durante a coletiva, a diretora do Deotap, delegada Thaís Lemos, foi além da nota inicial e afirmou que “as investigações dão conta de que a empresa foi favorecida”. Segundo ela, o preço apresentado no início teria sido incompatível com a execução do serviço e teria afastado outros concorrentes. A delegada também disse que a empresa, sediada na Bahia, iniciou seus primeiros contratos em Sergipe pela Emsurb e depois passou a prestar serviços à Educação.

O Observatório Sergipe reconstruiu os acontecimentos desde 2024 e cruzou contratos, propostas comerciais, notas fiscais de campanha, registros societários, decisões de órgãos de controle e informações da coletiva. O resultado mostra uma sequência que ajuda a entender por que o caso chegou à esfera criminal.

Março de 2024: o controle da AKSA

Em 20 de março de 2024, uma alteração societária registrada na Bahia consolidou Carlos Humberto Mendonça Miranda Filho como controlador da AKSA Serviços de Locação de Mão de Obra Temporária Ltda. O capital social foi fixado em R$ 5 milhões e a administração passou a caber a ele de forma isolada.

O documento registra ainda a saída de Carlos Humberto Mendonça Miranda, sem o “Filho”, que transferiu sua participação. Assim, quando a AKSA começou a contratar com a Prefeitura de Aracaju em 2025, Carlos Filho já concentrava o controle e a administração da empresa.

A documentação apresentada em contratos públicos usa endereço eletrônico ligado ao domínio grupochm.com.br. Carlos Filho também aparece em outros empreendimentos e negócios públicos na Bahia, entre eles empresas de locação de máquinas e serviços. Até o momento, não há prova pública de que essas outras empresas façam parte da Operação Histograma.

2024: antes da Emsurb, havia a campanha

No mesmo ano, Aracaju vivia a campanha municipal que terminaria com a eleição de Emília Corrêa. Hugo Esoj já aparecia publicamente como articulador político da candidatura antes da votação.

O Observatório Sergipe localizou duas notas fiscais emitidas por Hugo para a campanha. A primeira, de R$ 36 mil, descreve o serviço como coordenação política da campanha eleitoral de 2024. A segunda, relacionada ao segundo turno, foi de R$ 14,4 mil. O total chegou a R$ 50,4 mil.

As notas fiscais trazem ainda o e-mail recursoshumanos@gcaast.com.br. A GCAAST é uma empresa contábil ligada a Sidney Thiago dos Santos, irmão de Hugo.

A própria GCAAST também prestou serviços à campanha de Emília. Foram localizadas notas de R$ 80 mil e R$ 35 mil por serviços contábeis eleitorais, totalizando R$ 115 mil.

Esses pagamentos são serviços eleitorais documentados e não representam, por si, qualquer irregularidade. A relevância está na cronologia: as relações profissionais existiam antes da posse da nova administração.

Depois da eleição: dois irmãos em áreas estratégicas

Após a vitória eleitoral, Hugo Esoj foi anunciado para presidir a Emsurb, empresa responsável por serviços urbanos e pelos contratos de limpeza que mais tarde entrariam na investigação.

Sidney Thiago, irmão de Hugo, assumiu a Secretaria Municipal da Fazenda. A sequência mostra que integrantes do núcleo profissional da campanha passaram a ocupar áreas importantes da nova gestão.

Esse vínculo político e administrativo é um dado objetivo, mas não significa participação em crime. Até o momento, não há prova pública de que a prefeita tenha participado da seleção da AKSA, negociado preços ou recebido qualquer vantagem da empresa.

Um elo histórico com José Romualdo

Durante a revisão dos documentos, o Observatório identificou que José Romualdo Bispo Santos, que depois se tornaria diretor administrativo-financeiro da Emsurb e assinaria contratos com a AKSA, já havia sido sócio da GCAAST ao lado de Sidney Thiago.

A data, porém, é fundamental: o registro da Junta Comercial de Sergipe mostra José Romualdo como sócio retirante em dezembro de 2022. Portanto, a sociedade é anterior à campanha de 2024 e aos contratos investigados. O dado demonstra uma relação profissional histórica, não uma sociedade atual.

Fevereiro de 2025: AKSA entra na limpeza urbana

Em 19 de fevereiro de 2025, a Prefeitura anunciou uma contratação emergencial para manter a limpeza urbana. A Renova ficou com os lotes 1 e 4, enquanto a AKSA recebeu os lotes 2 e 3.

Os dois primeiros contratos da AKSA somavam quase R$ 10 milhões: R$ 5.215.458 em um lote e R$ 4.777.257,96 no outro. Hugo Esoj e José Romualdo aparecem representando a Emsurb. Carlos Humberto Mendonça Miranda Filho aparece pela AKSA.

Naquele momento, a Prefeitura divulgou a mudança como uma solução capaz de reduzir o custo da limpeza. O contrato anterior era apresentado como próximo de R$ 85 milhões, enquanto a nova composição emergencial, considerando as empresas envolvidas, ficaria em torno de R$ 53 milhões.

O primeiro preço não apareceu como superfaturado

Um detalhe importante impede uma leitura simplista do caso. Quando o Ministério Público de Contas analisou a contratação inicial, o parecer não concluiu que o preço global estava superfaturado. A análise apontou economicidade e um desconto real de aproximadamente 8,60%.

Isso combina com o ponto central apresentado agora pela Polícia: a investigação não descreve simplesmente uma empresa que começou cobrando caro. A suspeita é de entrada com preço muito baixo, seguida posteriormente por recomposição de valores.

Só AKSA e Renova foram convidadas

O parecer do Ministério Público de Contas apontou outro problema. Segundo o documento, somente AKSA e Renova foram convidadas pela Emsurb a apresentar propostas na Dispensa Emergencial 048/2025.

O MPC questionou a ausência de justificativa circunstanciada para limitar a consulta e apontou problemas relacionados à competitividade e à forma de seleção. Essa constatação administrativa ganhou novo peso porque uma das linhas anunciadas da Histograma é justamente verificar possível direcionamento das contratações.

Convidar apenas duas empresas não prova, por si, direcionamento criminoso. A finalidade da investigação é descobrir se a restrição teve justificativa legítima ou se fez parte de um mecanismo de favorecimento.

O TCE já acompanhava o caso

O Tribunal de Contas de Sergipe passou a acompanhar as contratações ainda em 2025. Houve auditoria extraordinária e análise do procedimento emergencial. O processo também registrou problemas na execução de serviços, como equipes incompletas e falhas relacionadas a equipamentos e materiais.

Mais tarde, a representação relacionada à Emsurb foi julgada parcialmente procedente, com determinações. Procedimento de Tribunal de Contas não equivale a condenação criminal, mas comprova que os contratos já vinham despertando preocupação institucional antes da Operação Histograma.

Março de 2025: uma filial em Aracaju

Cerca de um mês depois dos primeiros contratos, em 18 de março de 2025, a AKSA abriu filial em Aracaju, no Bairro Industrial. A matriz permanecia em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia.

Abrir uma filial depois de conquistar contratos em uma cidade é uma decisão empresarial regular. A informação é relevante pela cronologia e pela velocidade da consolidação da empresa em Sergipe.

Junho de 2025: R$ 71,38 milhões na Educação

Em 4 de junho de 2025, a AKSA venceu o Pregão Eletrônico SEPLOG-PE0017/2025, solicitado pela Secretaria Municipal da Educação. O valor homologado foi de R$ 71.380.366,07.

O objeto incluía cuidadores escolares, tradutores e intérpretes, instrutores de Libras e supervisores operacionais para atendimento da educação inclusiva.

Na coletiva desta terça-feira, Thaís Lemos destacou justamente essa expansão. A delegada afirmou que a empresa não era de Sergipe, começou seus primeiros contratos no estado pela Emsurb e depois chegou à Educação, área na qual, segundo a investigação, não possuía especialização que explicasse naturalmente o movimento.

Agosto de 2025: os preços mudam

Serviço Fev/2025 Ago/2025 Variação
Varrição manual R$ 173,78 R$ 208,51 +20%
Limpeza mecanizada de praias R$ 115,29 R$ 192,03 +66,6%
Varrição mecanizada R$ 60,65 R$ 117,39 +93,6%

Os contratos seguintes da limpeza urbana apresentam a comparação mais sensível da apuração. Em fevereiro, a varrição manual aparecia por cerca de R$ 173,78 por quilômetro. Em agosto, o valor chegou a R$ 208,51, alta aproximada de 20%.

A limpeza mecanizada das praias passou de R$ 115,29 por hora para R$ 192,03, aumento aproximado de 66,6%.

A varrição mecanizada passou de R$ 60,65 por quilômetro para R$ 117,39. A diferença é de aproximadamente 93,6%.

Na coletiva, a Polícia afirmou que o preço inicial teria sido incompatível com a execução e poderia ter afastado concorrentes. Segundo a delegada, após a contratação houve alteração contratual e, nos meses seguintes, novos valores se aproximaram do patamar de referência do próprio setor público.

A Polícia considera possível inclusive que serviços não tenham sido executados integralmente, hipótese que ajudaria a explicar a capacidade de apresentar um preço inicial muito baixo. Essa possibilidade ainda depende de prova e perícia.

Aumentos de preço não são automaticamente fraude. Dissídios trabalhistas, combustível, equipamentos, composição das equipes e mudanças operacionais podem alterar custos. A questão investigativa é saber se as justificativas eram legítimas e proporcionais ou se houve recomposição artificial.

A expansão contratual

Os principais instrumentos identificados pelo Observatório mostram o crescimento da presença da AKSA na Prefeitura. Em fevereiro de 2025, os dois contratos da Emsurb somavam aproximadamente R$ 9,99 milhões. Em agosto daquele ano, novos contratos mapeados alcançavam aproximadamente R$ 10,19 milhões e R$ 6,81 milhões. Na Educação, o certame foi de R$ 71,38 milhões.

Em 14 de agosto de 2026, o sistema municipal registrou outro contrato com a AKSA, desta vez pela Seplog, no valor de R$ 23.860.082,40, para serviços contínuos de apoio administrativo e operacional.

R$ 122,2 milhões: contrato não é pagamento

Somados, os principais contratos e certames mapeados chegam a aproximadamente R$ 122,2 milhões em valores nominais.

Esse número não significa que R$ 122,2 milhões tenham sido efetivamente pagos à empresa. Contrato, empenho, liquidação e pagamento são etapas diferentes. A próxima trilha documental é descobrir quanto efetivamente saiu dos cofres públicos, para quais serviços e com quais atestes de execução.

14 de agosto de 2026: uma coincidência na cronologia

O contrato de R$ 23,86 milhões da Seplog foi assinado em 14 de agosto de 2026. Naquele mesmo dia, a Prefeitura anunciou a saída de Hugo Esoj da Emsurb e de Thyago Silva da Seplog.

Onze dias depois, em 25 de agosto, a Operação Histograma foi deflagrada. A Emsurb e a Seplog apareceram no contexto das buscas, e Hugo foi apontado pela imprensa local como um dos alvos dos mandados.

Não existe, até o momento, prova pública de que as mudanças de comando tenham ocorrido em razão de conhecimento prévio da investigação. A coincidência temporal é relevante, mas seu significado ainda precisa ser esclarecido.

Onde entra a prefeita Emília Corrêa

Os documentos demonstram uma ligação política anterior entre Emília Corrêa e Hugo Esoj: ele atuou na campanha, recebeu por coordenação política e depois foi escolhido para comandar a Emsurb.

O caminho documental comprovável é campanha de Emília, Hugo, Emsurb e contratos com a AKSA. O Observatório não encontrou, até agora, sociedade empresarial, doação ou transferência financeira que estabeleça ligação direta entre Carlos Humberto Mendonça Miranda Filho e a prefeita.

Também não existe prova pública de participação de Emília na escolha da AKSA, na formação dos preços investigados ou em eventual pagamento de vantagens indevidas. Qualquer afirmação nesse sentido ultrapassaria o que os documentos atualmente permitem dizer.

A rede empresarial de Carlos Filho

Carlos Humberto Mendonça Miranda Filho aparece como administrador da AKSA e também possui histórico de atuação em outras empresas e negócios públicos na Bahia. Registros públicos relacionam seu nome a empreendimentos de serviços, transporte, máquinas e outros segmentos.

O empresário também teve atividade político-eleitoral na Bahia no passado, com registro de candidatura a vereador em 2016. Esse dado não estabelece qualquer relação com a atual gestão de Aracaju, mas integra o perfil público do controlador da AKSA.

Até o momento, não há evidência de que outras empresas do grupo empresarial estejam incluídas formalmente na Operação Histograma.

O que a Polícia apreendeu

As equipes recolheram celulares, computadores, notebooks e documentos. Segundo os delegados, parte dos dispositivos não foi desbloqueada pelos responsáveis durante as buscas e a perícia deverá exigir tempo.

Essa fase pode ser determinante. Contratos mostram decisões formalizadas. Aparelhos eletrônicos podem revelar, ou afastar, a existência de conversas, planilhas, minutas, contatos prévios ou discussões sobre preços e contratações.

O caso dos R$ 240 mil é outro inquérito

A Polícia Civil também esclareceu que, até agora, não existe vinculação comprovada entre a Histograma e a apreensão anterior de aproximadamente R$ 240 mil com um servidor da Secretaria Municipal da Educação.

Os delegados disseram que são inquéritos independentes. Somente a análise futura dos dispositivos poderá revelar eventual cruzamento. Por isso, os dois episódios não devem ser apresentados como parte de um mesmo esquema neste momento.

O que está documentado

A AKSA foi contratada emergencialmente pela Emsurb; Carlos Filho aparece como controlador e representante da empresa; Hugo Esoj e José Romualdo assinaram contratos pela Emsurb; apenas AKSA e Renova foram convidadas na dispensa analisada pelo MPC; a AKSA venceu o pregão de R$ 71,38 milhões da Educação; alguns preços unitários aumentaram de 20% a 93,6%; a empresa assinou outro contrato de R$ 23,86 milhões em 2026; Hugo trabalhou remuneradamente na campanha de Emília; e órgãos de controle já analisavam problemas nos contratos antes da operação policial.

O que ainda precisa ser provado

A investigação ainda precisa demonstrar se houve direcionamento criminoso, se o preço inicial foi deliberadamente inexequível para afastar concorrentes, se os aumentos posteriores foram artificialmente produzidos, quem teria participado de cada decisão e se houve pagamento de vantagem indevida a qualquer agente público.

A pergunta agora é seguir o dinheiro

A etapa seguinte é abandonar a simples soma de contratos e seguir o fluxo real da despesa pública: contrato, empenho, liquidação, pagamento e favorecido. Também será necessário identificar fiscais, medições, atestes e autorizações de cada desembolso.

É nessa trilha que os R$ 122,2 milhões nominais poderão ser separados do dinheiro efetivamente pago e dos serviços realmente executados.

A Histograma está apenas começando

Mandados de busca não representam condenação. Relação política não é crime. Parentesco não é crime. Ser fornecedor do poder público não é crime. Aumento de preço, sozinho, também não prova fraude.

O que transforma essa sequência em assunto de interesse público é a combinação dos valores envolvidos, dos alertas anteriores dos órgãos de controle, das relações administrativas documentadas e da investigação criminal que agora tenta descobrir o que ocorreu nos bastidores.

Os contratos mostram os números. As notas fiscais mostram relações anteriores. Os registros societários mostram quem controlava as empresas. Os documentos do TCE mostram que havia alertas. Agora, celulares, computadores e documentos apreendidos podem revelar como as decisões foram construídas.

O Observatório Sergipe continuará acompanhando a Operação Histograma e seguirá a trilha dos pagamentos, das autorizações e das provas que forem oficialmente incorporadas ao caso.

Fontes da reportagem