Soberba ironia
Em artigo publicado em 4 de outubro de 2026, Rocelito Paulo Pinto analisa como a confiança excessiva em poder, tecnologia e competência pode levar autoridades e organizações a ignorar limites, alertas e riscos conhecidos.

Em artigo publicado em 4 de outubro de 2026, Rocelito Paulo Pinto examina como a autoridade pode se afastar da finalidade pública e passar a proteger a própria posição. Para o autor, esse processo costuma ser acompanhado pela soberba, que alimenta a crença na superioridade, na infalibilidade e na invulnerabilidade de quem exerce poder.
O texto parte da ideia de que leis, limites e atribuições são criados para organizar a vida coletiva, promover a justiça e preservar a igualdade perante a lei. A distorção ocorre quando a autoridade deixa de se entender como instrumento da sociedade e passa a tratar suas decisões e sua permanência como objetivos centrais. Segundo Pinto, a soberba dificulta a percepção dos sinais de alerta e persiste mesmo quando a queda já se aproxima.
O Titanic é apresentado como um dos exemplos históricos dessa confiança excessiva. Símbolo do avanço da engenharia naval no início do século XX, o navio era grande, luxuoso e considerado excepcionalmente seguro para sua época. Durante a viagem inaugural, porém, colidiu com um iceberg na madrugada de 15 de abril de 1912 e afundou no Atlântico, provocando a morte de mais de 1.500 pessoas, segundo o texto.
A mesma reflexão aparece no caso do encouraçado alemão Bismarck, descrito como uma das máquinas de guerra mais poderosas de seu tempo. O navio iniciou sua primeira missão oficial em 19 de maio de 1941 e, oito dias depois, em 27 de maio, foi afundado no Atlântico Norte. Para o autor, a força de uma estrutura não elimina suas vulnerabilidades e pode ser insuficiente diante de uma estratégia adversária ou de circunstâncias imprevistas.
Pinto também recorre a narrativas religiosas, mitológicas e históricas. A Torre de Babel representa a tentativa de superar limites por meio do orgulho e da imposição. Na história de Ícaro, o problema está na incapacidade de reconhecer os limites do próprio voo. O rei Creso, da Lídia, interpretou uma resposta do Oráculo de Delfos conforme suas expectativas e foi derrotado por Ciro, rei da Pérsia, depois de atravessar o rio Hális.
Outro episódio citado é a invasão da Grécia por Xerxes I, em 480 a.C. Uma tempestade destruiu uma ponte de barcos construída para a passagem do exército. De acordo com a tradição registrada por Heródoto e mencionada no artigo, Xerxes teria ordenado que o mar fosse castigado. A cena é usada para mostrar a tentativa de uma autoridade de impor sua vontade à realidade e à natureza.
Napoleão Bonaparte aparece como exemplo de que a soberba também pode atingir pessoas reconhecidas por sua competência. O artigo destaca sua inteligência militar, capacidade estratégica e habilidade política, mas relaciona a derrota na campanha da Rússia, em 1812, às dificuldades logísticas, às grandes distâncias, à escassez de suprimentos, à retirada dos russos e ao rigor do inverno. Depois, a derrota em Waterloo contribuiu para sua perda de autoridade.
A chamada Armada Invencível, enviada por Filipe II da Espanha contra a Inglaterra em 1588, reforça a crítica ao uso de certezas absolutas. O fracasso da expedição é associado, no texto, à estratégia inglesa, a dificuldades logísticas, a problemas de comunicação, às tempestades e às limitações do plano de invasão. Para Pinto, transformar uma qualidade, como a força, em uma identidade permanente, como a invencibilidade, amplia o risco de decisões equivocadas.
O desastre do ônibus espacial Challenger, em 28 de janeiro de 1986, encerra a sequência de exemplos apresentada no material. A explosão ocorreu pouco depois do lançamento e matou os sete astronautas. Segundo o artigo, engenheiros já conheciam problemas nos anéis de vedação dos foguetes e havia preocupações com as baixas temperaturas do dia, mas a missão foi autorizada. A investigação posterior apontou uma falha de decisão associada a uma cultura organizacional que aceitava riscos porque situações semelhantes haviam terminado sem consequências. O autor resume esse comportamento na ideia de que o fato de um risco não ter produzido dano no passado não oferece proteção para o futuro.