Mercados reagem à eleição de Lula com queda histórica da Bolsa e alta do dólar
O dólar avançou 8,2%, para R$ 5,40, enquanto o Ibovespa recuou 13,88%, aos 176.608 pontos. A forte volatilidade levou à interrupção temporária dos negócios e motivou atuações do Banco Central e do Tesouro Nacional no câmbio e no mercado de títulos públicos.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições provocou forte reação nos mercados financeiros nesta segunda-feira. O dólar comercial subiu 8,2% e fechou a R$ 5,40, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 13,88%, aos 176.608 pontos. Foi a maior perda diária do índice desde março de 2020, segundo os dados apresentados no balanço do mercado.
A moeda americana abriu no limite de alta permitido para a sessão, com avanço de 8,65%, a R$ 5,42. As negociações foram interrompidas e, após a retomada, pouco antes das 10h, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12,2%. O movimento superou a variação intradiária da Ptax registrada em 15 de janeiro de 1999, quando o Brasil abandonou o regime de bandas cambiais e passou a adotar o câmbio flutuante.
Na Bolsa, o circuit breaker foi acionado depois que o Ibovespa recuou mais de 10%. O mecanismo interrompe temporariamente os negócios em momentos de oscilações bruscas, permitindo que investidores reavaliem posições e ordens. Com a reabertura, a queda chegou a 17% durante o pregão, antes de o índice encerrar o dia em baixa de 13,88%.
A volatilidade também atingiu o mercado de juros futuros. Diante do aumento das taxas, o Tesouro Nacional anunciou operações de recompra de títulos públicos. Na primeira intervenção, foram recomprados R$ 7,067 bilhões em títulos prefixados NTN-F. À tarde, o órgão realizou nova operação e recomprou R$ 7,7 bilhões em NTN-B, papéis vinculados à inflação e que oferecem uma taxa de juros adicional.
O Banco Central atuou no mercado de câmbio por meio de leilões de swap cambial. De acordo com as informações divulgadas, a operação representou a injeção de US$ 3,75 bilhões no mercado futuro de dólares. Depois da atuação da autoridade monetária, a alta perdeu força: por volta das 12h30, a moeda era negociada a R$ 5,4135, com avanço de 8,42%. Na sexta-feira, antes do segundo turno, o dólar havia fechado a R$ 4,99.
A reação refletiu a reversão de posições montadas por investidores que apostavam em uma vitória de Flávio Bolsonaro. A liderança do candidato no primeiro turno havia impulsionado ativos brasileiros e atraído fluxo estrangeiro, em meio à expectativa de uma política fiscal mais restritiva e de futuras reduções dos juros. Uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, divulgada antes do segundo turno, indicava que a maioria esperava queda de pelo menos 5% do real e alta superior a um ponto percentual nas taxas de juros futuros caso Bolsonaro fosse derrotado.
Analistas ouvidos no material avaliam, porém, que a direção dos mercados nos próximos meses dependerá das decisões do novo governo. Simon Quijano-Evans, estrategista da Macro Hive, afirmou esperar recuperação gradual do real, citando os juros reais elevados no Brasil, o diferencial de taxas em relação aos Estados Unidos e a possibilidade de manutenção de uma postura cautelosa pelo Banco Central. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que será necessário acompanhar a organização do governo e o avanço das medidas econômicas a partir de 2027.
Relatório do Goldman Sachs apontou que Lula terá de governar com um Congresso de maioria conservadora e que seu capital político será limitado pela impossibilidade de disputar a reeleição em 2030. Segundo os economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka, o mercado deverá observar as declarações sobre a política econômica, a escolha do ministro da Fazenda e uma estratégia detalhada de consolidação fiscal para os próximos quatro anos. O banco também defendeu transparência sobre o custo das promessas de campanha e sobre os ajustes necessários no Orçamento de 2027.
Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O resultado contrariou a expectativa predominante entre investidores e desencadeou um ajuste imediato em ações, câmbio e juros. A avaliação sobre a trajetória dos ativos brasileiros dependerá agora das primeiras sinalizações do governo sobre gastos públicos, composição da equipe econômica e relação com o Congresso.
Fontes da reportagem
Gostou do nosso trabalho? Pague um café pra gente. ☕
O Observatório Sergipe convida você a apoiar a Rádio Observatório Web e o Projeto Órion, nossa experiência gratuita de rádio na internet. O valor é voluntário e ajuda a custear a operação técnica.