Captura de Maduro expõe desgaste da aliança entre Venezuela e Cuba
Relação construída por Hugo Chávez e Fidel Castro perdeu espaço após a operação americana que prendeu Nicolás Maduro. A cooperação em segurança teria sido reduzida, enquanto missões médicas cubanas ainda atuam em ao menos 22 estados venezuelanos.

A relação entre Venezuela e Cuba perdeu força nos meses seguintes à operação militar dos Estados Unidos que capturou Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026. O sinal mais recente foi a ausência de qualquer menção à ilha no discurso da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, durante o debate da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Foi a primeira vez em duas décadas que um representante da Venezuela não citou Cuba no pronunciamento.
A mudança contrasta com a proximidade construída por Hugo Chávez e Fidel Castro. Em discurso na Assembleia Geral em 2009, Chávez mencionou Cuba 11 vezes. Nicolás Maduro citou o país 13 vezes em 2015. Chávez chegou a afirmar que Venezuela e Cuba eram “uma mesma nação” e tinham “um mesmo governo”, além de definir a parceria como uma “aliança estratégica”, uma “irmandade” e uma “unidade histórica”.
Após a captura de Maduro, Rodríguez afirmou que a Venezuela continuava livre para manter relações com China, Rússia, Irã, Cuba e Estados Unidos. “Somos uma nação soberana”, disse ela em discurso na Assembleia Nacional. Meses depois, porém, o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, classificou a Venezuela como um país amigo e afirmou que “aliado é uma palavra muito forte”. A declaração foi interpretada pela BBC News Mundo como o primeiro reconhecimento oficial de que a relação estratégica havia se deteriorado.
A aproximação entre os dois países começou com um acordo pelo qual a Venezuela fornecia petróleo à ilha em condições preferenciais. Em troca, Cuba enviava profissionais para áreas como saúde, educação, cultura e esporte. A presença mais visível foi a de médicos cubanos no programa Barrio Adentro, criado para ampliar o atendimento básico em comunidades pobres e comparado, pela reportagem, ao Mais Médicos brasileiro.
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que o principal componente da parceria estava na segurança. Frank Mora, professor de relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida e ex-embaixador e funcionário do Pentágono, disse que agentes cubanos passaram a atuar na Venezuela depois de abril de 2002, com o objetivo de proteger Chávez e evitar conspirações nas Forças Armadas. Segundo ele, a cooperação alcançou a contrainteligência, a repressão e o treinamento militar, a ponto de alguns analistas falarem em “cubanização” das Forças Armadas Bolivarianas.
Em janeiro, o site cubano 14ymedio informou que um avião Ilyushin IL-96-300, da Cubana de Aviación, realizou ao menos seis viagens entre Caracas e Havana para transportar militares feridos na operação. Com base na capacidade estimada da aeronave, o site calculou que cerca de 2.500 cubanos poderiam ter sido repatriados. Em fevereiro, a Reuters publicou relatos de 11 fontes segundo os quais agentes de segurança e médicos cubanos estavam deixando a Venezuela sob pressão dos Estados Unidos. As fontes divergiram sobre se eles foram expulsos pelo governo Rodríguez, chamados de volta por Cuba ou se saíram por decisão própria.
A retirada teria atingido a Dgcim, onde funcionários cubanos teriam sido afastados de seus cargos. John Polga-Hecimovich, professor associado de ciência política da Academia Naval dos Estados Unidos, afirmou que há pouca transparência sobre as mudanças nos órgãos de segurança venezuelanos. Para ele, a redução da presença cubana nessas estruturas é uma prioridade da inteligência americana e há indícios de que a tarefa foi bem-sucedida. Mora também disse que integrantes do Pentágono confirmaram a saída dos agentes cubanos, embora um porta-voz do Departamento de Estado não tenha fornecido detalhes concretos.
A cooperação médica, por outro lado, parece ter sido menos afetada. Maria Werlau, diretora-executiva da organização Archivo Cuba, afirmou à BBC News Mundo que as missões cubanas continuavam funcionando em pelo menos 22 dos estados venezuelanos. A operação também alterou o fornecimento de petróleo: depois da captura de Maduro, os Estados Unidos assumiram o controle da venda do produto venezuelano e mantiveram suspenso o envio do insumo para Cuba. A ilha já não recebia petróleo da Venezuela desde o fim de 2025, em razão do bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos à costa venezuelana.