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Revés de Trump pode abrir disputa na direita brasileira, avaliam especialistas

A derrota do presidente americano nas eleições legislativas deve enfraquecer simbolicamente o bolsonarismo e favorecer setores moderados da direita, mas não deve retirar do grupo a liderança eleitoral nesse campo político, segundo pesquisadores ouvidos pelo Valor.

Revés de Trump pode abrir disputa na direita brasileira, avaliam especialistas
Crédito da imagemArte editorial contextual: Observatório Sergipe
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A derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas americanas pode produzir efeitos políticos no Brasil ao atingir um dos principais referenciais internacionais do bolsonarismo. Pesquisadores avaliam que o resultado tende a estimular setores mais moderados da direita, embora o grupo ligado à família Bolsonaro ainda mantenha a posição de principal força eleitoral desse campo no país.

O impacto mais imediato, segundo Fernando Bizzarro, doutor em ciência política pela Universidade Harvard e professor do Boston College, seria simbólico. Depois da derrota do bolsonarismo para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil, o revés de Trump representaria uma nova perda para a direita populista nas Américas, que vinha ganhando espaço político. Para o professor, a sequência indica que a influência desse campo pode estar entrando em uma fase menos favorável.

Bizzarro pondera, no entanto, que o resultado americano não significa uma perda automática de força eleitoral para o bolsonarismo. Ele destaca o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a presença do sobrenome Bolsonaro entre parlamentares e governadores eleitos. Na avaliação do pesquisador, o movimento continua sendo a principal organização eleitoral da direita brasileira, ainda que possa enfrentar uma concorrência maior de grupos que tentem se apresentar como alternativa ao núcleo familiar.

A relação entre o resultado das eleições americanas e a política externa também deve ser limitada, segundo Bizzarro. Embora o Congresso dos Estados Unidos possa influenciar decisões por meio da aprovação do orçamento, o presidente conserva autonomia em temas como tarifas e relações bilaterais. Assim, a mudança na composição do Legislativo americano não necessariamente provocará uma alteração imediata na relação entre os dois países.

Para o professor, porém, a associação pública com Trump pode perder valor eleitoral no Brasil. O apoio do presidente americano e as tarifas impostas ao país teriam prejudicado as intenções de voto de Flávio Bolsonaro durante a campanha, levando o senador a reduzir as referências a Trump no segundo turno. Com a derrota do republicano, a direita brasileira ainda pode manter os Estados Unidos como referência, mas tende a evitar demonstrações explícitas de proximidade com o presidente americano.

Jorge Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), afirma que a repercussão no Brasil é maior porque o bolsonarismo deixou de manter apenas uma aproximação estratégica com a direita americana. Segundo ele, houve apoio explícito ao trumpismo e iniciativas de pressão sobre o Brasil, o que vinculou mais diretamente a imagem da família Bolsonaro à do presidente dos Estados Unidos.

Chaloub avalia que a derrota de Trump, somada às perdas eleitorais de Flávio Bolsonaro, pode levar parte da direita a procurar alternativas ao bolsonarismo. O professor ressalva, contudo, que Jair Bolsonaro ainda concentra o maior capital eleitoral desse campo e demonstrou capacidade de transferir votos rapidamente ao filho. Para ele, parlamentares podem continuar considerando vantajosa a proximidade com o ex-presidente, enquanto candidatos à Presidência podem enxergar essa associação como um obstáculo.

Um dos poucos aliados da família Bolsonaro nos Estados Unidos a comentar o pleito foi o influenciador Paulo Figueiredo. Ele comemorou a permanência do caráter republicano da Flórida, estado onde vive com os bolsonaros, e publicou uma mensagem nas redes sociais. Figueiredo é neto do ex-presidente João Figueiredo, último mandatário da ditadura militar brasileira, e vive nos Estados Unidos desde 2016.

Fontes da reportagem

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