Quem tem medo de “O Capital”? — Sobre mitificada leitura da monumental “Crítica da economia política”, de Karl Marx
Em artigo publicado em 27 de outubro de 2026, Leo Mittaraquis contesta a ideia de que a obra de Karl Marx seja incompreensível e defende leitura lenta, sistemática e comparada de seus textos econômicos e filosóficos.

Em artigo publicado no site Só Sergipe em 27 de outubro de 2026, Leo Mittaraquis discute a leitura de “O Capital” e de outros textos de Karl Marx. O autor questiona a imagem de que a obra marxiana seria inacessível ao leitor comum e sustenta que a complexidade dos livros exige estudo cuidadoso, sem que isso os torne impossíveis de compreender.
O texto parte de uma referência bem-humorada à peça “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?” para afirmar que, na avaliação de Mittaraquis, não há motivo para tratar “O Capital” como uma obra que provoca medo. A crítica se dirige tanto aos que rejeitam Marx sem conhecê-lo quanto aos que, segundo o autor, transformam o pensador em uma figura acima de qualquer questionamento.
Mittaraquis afirma que Marx escreveu textos complexos, porém orientados por uma preocupação com a clareza, a concretude e o exame das fontes. Entre as obras citadas estão “O Capital”, “A Ideologia Alemã”, “A Questão Judaica”, “A Miséria da Filosofia”, “O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte” e a tese de doutorado sobre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro.
Na avaliação apresentada no artigo, a estrutura de “O Capital” foi construída gradualmente, com a elaboração dos próprios conceitos ao longo da exposição. O primeiro volume foi publicado por Marx. Os dois volumes seguintes foram editados e publicados por Friedrich Engels, segundo a reconstrução feita pelo autor, que também menciona as edições de textos sobre a teoria da mais-valia organizadas por Karl Kautsky entre o fim do século 19 e o início do século 20.
O artigo registra que as publicações associadas à teoria da mais-valia foram posteriormente criticadas e reorganizadas por causa da maneira considerada livre com que Kautsky reuniu os escritos póstumos. Essa observação é usada por Mittaraquis para destacar que a circulação da obra de Marx também envolve decisões editoriais e diferentes formas de organização dos textos deixados pelo autor.
A análise não apresenta Marx como a única referência possível para o estudo da economia e da sociedade. Mittaraquis cita Keynes, Hayek e Böhm-Bawerk como autores que produziram interpretações consideradas relevantes e recomenda a comparação entre perspectivas distintas. No campo da crítica literária, menciona György Lukács e Terry Eagleton como pensadores que adotaram ou adaptaram elementos da tradição marxista para analisar a literatura.
Entre os conceitos destacados está o de fetichização da mercadoria. O autor considera que a formulação ajuda a examinar como relações sociais podem aparecer associadas às mercadorias e observa que outros pensadores, como Jean Baudrillard, apresentaram críticas e mudanças conceituais em relação a essa abordagem. O texto também menciona Erich Fromm e Hans-Georg Flickinger como autores que fizeram críticas incisivas a Marx.
A recomendação central do artigo é que “O Capital” seja lido de forma lenta e sistemática. Mittaraquis sugere, como possibilidade, um período de cerca de 18 meses para percorrer os três volumes, com seis meses dedicados a cada um, além do tempo necessário para anotações e consulta a estudos teóricos. Para ele, a base construída no primeiro volume facilita a leitura dos dois seguintes, embora o conteúdo continue exigindo atenção e esforço do leitor.
No encerramento, o autor critica o uso de referências a Marx por pessoas que, em sua avaliação, não estudaram diretamente a obra. Ele afirma que desconhecer um clássico não representa falha moral, mas considera problemático falar sobre o tema com segurança sem conhecimento suficiente. O artigo é apresentado como uma tentativa de estimular ao menos um leitor a iniciar uma leitura completa e cuidadosa de “O Capital”.
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