Surto de sarampo nos Estados Unidos eleva alerta para o Brasil
Entre os americanos infectados, 98% não estavam totalmente vacinados, segundo os dados apresentados na reportagem. Gatti afirmou que o governo dos Estados Unidos tem legitimado discursos negacionistas e destacou a atuação do secretário de Saúde americano, que, segundo ele, se declara contrário às vacinas. Para o diretor do PNI, o aumento dos casos está diretamente relacionado à redução da proteção da população.

A vacina contra o sarampo é considerada uma ferramenta de bloqueio porque, quando aplicada adequadamente, impede a infecção e a transmissão. O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, explicou que a doença se espalha com facilidade quando encontra pessoas suscetíveis. A manutenção de uma cobertura de 95% permitiria, segundo ele, preservar a imunidade coletiva e proteger também recém-nascidos e pessoas que não podem ser vacinadas por condições de saúde.
A situação americana ocorre em um momento de pressão sobre o Brasil, que registrou 61 casos de sarampo neste ano, a maioria com origem importada. Como não há transmissão sustentada em território nacional desde 2024, o país mantém a certificação de área livre da doença. A condição, porém, depende da capacidade de identificar rapidamente os casos, interromper cadeias de transmissão e manter altas coberturas vacinais.
O Brasil recebeu a certificação em 2016, mas perdeu o reconhecimento em 2019 após a reintrodução do vírus na região Norte. A doença se espalhou pelo país e provocou um grande surto em São Paulo, com 19 mil casos, de acordo com Eder Gatti. A recuperação do status foi atribuída pelo diretor do PNI a um trabalho coordenado entre o Ministério da Saúde, estados e municípios para reforçar a vigilância e ampliar a vacinação.
Nos Estados Unidos, o governo reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados para todas as crianças e determinou que a vacina tríplice viral seja substituída por três vacinas separadas, aplicadas em momentos diferentes. Juarez Cunha afirmou que as mudanças têm motivação política, não possuem base científica e são inviáveis porque as versões individualizadas contra sarampo, caxumba e rubéola não são fabricadas há quase duas décadas. A decisão também gerou orientações divergentes: a Academia Americana de Pediatria continua recomendando o esquema anterior.
Para Cunha, a resposta rápida das autoridades brasileiras tem conseguido impedir a transmissão, mas exige esforço e recursos. Ele também alertou que o avanço de discursos antivacinação nas redes sociais pode afetar a adesão no país. Como exemplo, citou relatos de pais que passaram a recusar, sobretudo em maternidades particulares, a vacina contra a hepatite B aplicada ao nascer, após a mudança da recomendação nos Estados Unidos. O diretor da SBIm ressaltou que, em crianças infectadas, a probabilidade de evolução para uma forma crônica da doença é de 90%, condição que pode levar à cirrose e ao câncer de fígado.