Interior pode perder renda e atividade econômica com estagnação de benefícios, aponta estudo
Levantamento do Made-USP estima que a interrupção dos ganhos reais em aposentadorias, BPC e programas de transferência de renda reduziria entre 6,8% e 10,8% a renda agregada dos municípios do interior nos próximos três anos. Em Sergipe, a perda projetada chega a cerca de 15%.

A estagnação ou o corte no valor de benefícios sociais e previdenciários pode provocar forte retração econômica em municípios do interior do Brasil nos próximos três anos, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). A análise considera os efeitos sobre a renda das famílias, o comércio local e a atividade econômica dessas cidades.
O levantamento aponta que aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) têm peso elevado na economia de grande parte dos municípios fora das regiões metropolitanas. Em famílias mais pobres, esses recursos podem representar quase metade do orçamento e são destinados principalmente à compra de itens de primeira necessidade, o que favorece a circulação imediata do dinheiro no comércio local.
Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora de regiões metropolitanas, conforme os dados apresentados no estudo. Nessas cidades, a participação das transferências públicas na renda seria até duas vezes maior do que nos grandes centros urbanos. No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários correspondem a 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana, enquanto chegam a 40% nas cidades do interior.
A pesquisa comparou dois cenários para avaliar o impacto da política de reajuste dos benefícios. O primeiro considera a evolução observada entre 2022 e 2025, período em que houve crescimento real para aposentadorias e BPC. O segundo reproduz um contexto semelhante ao de 2019 a 2022, marcado, segundo o levantamento, pela ausência de ganhos reais do salário mínimo e pelo congelamento dos benefícios.
Se não houvesse os reajustes reais considerados no primeiro cenário, a renda agregada do interior do país ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do nível projetado com a valorização dos benefícios. A economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, afirmou que a redução poderia desencadear efeitos sobre empregos, comércio e arrecadação municipal, atingindo também famílias que não recebem diretamente os auxílios.
As projeções indicam diferenças importantes entre os estados. Os impactos mais intensos ocorreriam no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, com redução estimada entre 17% e 18% na renda total. Amazonas, Sergipe e Pernambuco aparecem com perdas próximas de 15%. No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a queda projetada varia de 10% a 13%. Já Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina teriam redução de até 6,5%.
Além do efeito sobre a economia local, o estudo estima que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria levado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas à pobreza em municípios fora das regiões metropolitanas. Desse total, cerca de 2,4 milhões estariam em situação de extrema pobreza. Para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os benefícios podem corresponder a até 50% do rendimento, segundo o levantamento.
Em números absolutos, as maiores altas estimadas no número de pessoas pobres ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais, em São Paulo, com até 263 mil, e em Minas Gerais, com até 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará viriam na sequência, cada um com mais de 200 mil pessoas. Para o Made-USP, a manutenção da valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda tem impacto simultâneo na proteção contra a pobreza e na sustentação do consumo nas cidades do interior.